Motel tem energia negativa? Entenda crença que vê o sexual como “sujo”

Em meio a conteúdos espiritualistas publicados nas redes sociais, não é difícil encontrar discursos que descrevem locais, a exemplo de festas e motéis, como lugares com “energia negativa”. Sem contar com a afirmação de que, ao fazer sexo com uma pessoa, a energia dela pode ficar de seis meses a até sete anos dentro de você, incentivando que as pessoas sejam mais criteriosas e não façam tanto sexo casual. Fica a dúvida: isso realmente pode ser verdade?

O fato é que, dentro do espiritualismo, existem diversas vertentes e segmentos, mas para Pam Ribeiro, espiritualista e influencer conhecida como A Bruxa Preta, a energia não pode ser dividida entre “positiva” ou “negativa”. Apesar de haver a compreensão de dois polos opostos de energia — como na percepção oriental do yin yang —, nenhum deles é, necessariamente, positivo ou negativo; “bom” ou “ruim”.

Dito isso, a especialista afirma que a raiz dessa crença vem do que ainda há de “incrustado” do processo colonizador de higienização cristã. “É importante entender que o cristianismo ainda influencia todas as nossas percepções da realidade […] São séculos de repressão de tudo que é visto como ‘mundano’, e o sexo entra nisso”, diz.

No próprio caso do motel, o argumento de que ele seria um lugar pesado por que coisas ruins acontecem ali, como abusos, traições e prostituição, carrega um discurso moralista que, muitas vezes, mal é percebido por quem o faz. “As pessoas não levam em consideração que a maior incidência de feminicídio é dentro das casas, que não são vistas como lugares de energia negativa. Sem contar que perceber o trabalho sexual como algo ruim e errado também traz muito de moralidade”, elucida Pam.

Pam Ribeiro é espiritualista e conhecida nas redes sociais como A Bruxa Preta

Desde sempre, dentro do eurocentrismo, acontece a repressão do que seria o profano e sombrio, e as principais vítimas desse movimento são as mulheres. Afinal, as bruxas caçadas durante a Inquisição eram mulheres que cultuavam uma deusa e tinham conexão com a natureza.

“As mulheres já eram percebidas como inimigas e seres incompreendidos por sangrarem e estarem além da compreensão da época. No caso das mulheres pagãs e de tudo que não estava inserido na compreensão cristã, como feitiçaria, magia, intuição, lidar com a morte e sexualidade, era colocado como ruim e perigoso. Isso perdura até hoje”, ressalta.

Energia “fica” depois do sexo?

Apesar da disseminação da informação de que a energia da pessoa fica em você por até sete anos depois do sexo, a bruxa afirma: não é assim que funciona. “Se não, a gente ‘tava’ ferrada”, complementa. Mais uma vez, Pam aponta essa crença como uma ferramenta moral para trazer culpa ao sexo, o que acaba podando as pessoas — principalmente mulheres — de exercerem suas sexualidades da forma que desejam.

“Para começar, a energia não é um aspecto permanente. Ela muda, se altera, e existem inclusive banhos e rituais para isso. esse discurso é extremamente prejudicial. O que temos que prestar atenção é com quem estamos transando e por que. Se eu estou escolhendo me relacionar com pessoas que não me respeitam e me tratam mal, ou mesmo estou num ciclo de dependência emocional, antes de me preocupar com energia eu preciso procurar ajuda e acompanhamento psicológico para entender esse meu padrão comportamental”, garante.

Além disso, levando em consideração um recorte de gênero, esse tipo de discurso impede apenas que mulheres exerçam livremente sua sexualidade, uma vez que homens não são taxados como “vulgares” por fazerem o que bem entenderem com seus corpos.

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“A mulher que respeita sua autonomia sexual é errada, vulgar, puta, perigosa. Mas o homem, desde que o mundo é mundo, sempre pôde tudo, nunca foi julgado e ainda não é julgado. A mulher tem que estar num lugar dócil, e a verdade é que é justamente quando desobedecemos essa percepção é que a gente consegue ser quem nós queremos”, pontua.


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Como se “blindar”?

Primeiramente, é importante entender que não existe forma 100% eficaz de impedir que alguma energia, seja ela qual for, te atinja. “Uma vez que você tá no mundo, não tem como fugir, pra onde correr. Você vai se deparar com energias diversas. Mas a demonização desses lugares e hábitos não só não é uma solução, como também é uma ilusão”, diz.

Dito isso, Pam explica que, apesar de existirem rituais para limpeza, o fato é que a melhor ferramenta para evitar qualquer tipo de energia é o autoconhecimento. Se conhecer e conhecer os próprios limites é fundamental para saber se banca ou não certos ambientes e situações.

“Não é o lugar, é a gente. Se você está mal, cansada, com a energia baixa, você não vai para uma festa, se não é lógico que vai te fazer mal. É preciso se conhecer para ter essa percepção. Se você não sustenta ir a um motel, não vá; se você não sustenta um sexo casual, não faça. Não há nada de errado nisso. Mas deixar de fazer certas coisas apenas por conta da energia não faz sentido”, indica.


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