Cantora de jazz Kavita Shah canta em Lisboa paixão por Cabo Verde e Cesária Évora

A artista nova-iorquina de origem indiana vivia no Brasil em 2005 e já na altura estava “apaixonada pela música lusófona”, mas foi quando teve “a grande sorte” de ver actuar Cesária Évora, em Salvador da Baía, que tudo mudou.

“Foi um concerto que me marcou muito, sempre fiquei com vontade de conhecer a terra dela, Cabo Verde, e conhecer mais profundamente a música dela”, disse em entrevista à agência Lusa.

Deste primeiro contacto, guarda “a simplicidade e a autenticidade” da voz que imortalizou “Sodade”, que faziam dela “uma pessoa muito humana”.

“Nunca vi uma artista tão autêntica. Ela chegou ao coração de todos os que a viam. Ela estava descalça, bebia, fumava, estava completamente confortável com ela mesma. A maneira como ela cantou as canções, foi de uma forma muito natural, não vi nada forçado”, disse.

E prosseguiu: “Sendo eu mulher, de ascendência indiana, que cresci nos Estados Unidos, ver uma mulher também de cor, negra, forte e muito confortável com ela mesma e que tinha um poder muito forte, que vinha da sua autenticidade, foi isso que me marcou”.

O objetivo, que aos 20 anos de idade parecia distante, foi-se concretizando, pois Kavita Shah não mais esqueceu aquela que ficou conhecida como “a diva dos pés descalços”.

A cantora passou vários anos a realizar pesquisas etnográficas na ilha cabo-verdiana de São Vicente e em 2016 conheceu o guitarrista Bau, que a acompanha agora, e que tinha sido o director musical e guitarrista da Cesária. “Foi um encontro muito importante”, referiu.

“A Cesária foi a porta que abriu o meu caminho para Cabo Verde, onde descobri mais sobre ela, a música tradicional cabo-verdiana, mas também sobre outros cantores e compositores, como Vasco Martins, que é o grande compositor clássico de Cabo Verde”, contou, destacando nas suas descobertas a morna e a coladeira, as duas formas de música indígenas do Barlavento, como São Vicente.

E, neste percurso, a canção “Sodade” passou a ser uma espécie de “hino de vida” de Kavita Shah.

“Ao ouvir Sodade, não tinha consciência daquela canção. Para mim transmitiu a sensação de saudade, mas não é só saudade em português, é saudade em crioulo, que leva outra dimensão, é mais aquela saudade lusófona, que tem a ver com a experiência de emigrantes – que também vivi, sendo filha de emigrantes indianos -, de exilados, de quem vai embora do país, para talvez nunca mais rever o país, os amados”.

Kavita começou a cantar “Sodade” antes mesmo de conhecer Cabo Verde, fazendo a canção parte do seu álbum Visions (2014), quando tinha “um acento mais brasileiro”.

Mas, ao conhecer as ilhas, compreendeu muito mais da sua mensagem, a referência a São Tomé (“Quem mostra’ bo/Ess caminho longe?/Quem mostra’ bo/Ess caminho longe?/Ess caminho/Pa São Tomé”) e toda uma dimensão, para o que contribuiu o facto de ter aprendido o crioulo.

Kavita Shah fala nove idiomas e a pesquisa etnográfica que realizou já envolveu práticas musicais tradicionais no Brasil, África Ocidental, África Oriental, Turquia e Índia.

Talvez por isso, a sua interpretação de “Sodade” nunca é igual, contando com muito improviso.

“Quando canto Sodade improviso, porque é uma forma de encontrar o meu próprio caminho”, disse, indicando que, ao estar em Cabo Verde, ao conhecer as raízes da canção e os seus sentimentos, conseguiu incluí-los nos seus improvisos.

O trabalho discográfico que testemunha esta relação especial chama-se “Cape Verdean Blues”, que a artista apresenta como “uma homenagem a Cesária Évora” e “uma carta de amor ao Arquipélago de Cabo Verde”.

A digressão “Cape Verdean Blues”, que começou a 21 de Setembro na Universidade de Brown, nos Estados Unidos, chega a Portugal na quarta-feira, tendo concerto marcado para no Centro Cultural de Belém, que contará com a participação de Nancy Vieira. Porto e Lamego são as outras cidades portuguesas contempladas, antes de a artista seguir para Cabo Verde, onde estará na Praia e Mindelo.


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