Bibliotecas escolares apostam em dinâmicas para cativar estudantes

Apesar da era digital, as bibliotecas
escolares ainda possuem um papel importante na educação e no desenvolvimento
dos alunos. Numa visita a algumas escolas da capital, o Expresso das Ilhas
testemunhou o esforço dos estabelecimentos de ensino em promover a leitura e o
gosto pelos livros entre os alunos.

Bibliotecas
escolares

Em conversa com a professora e responsável da
biblioteca escolar do Agrupamento 13 de Ponta d’Água, Maria do Socorro,
apuramos que a biblioteca abarca as duas escolas e recebe constantemente visita
dos jardins infantis do bairro. Face às tecnologias, esta responsável garante
que há bastante interesse dos alunos em frequentar a biblioteca, até mesmo por
conta da diversificação das actividades que são disponibilizadas.

“A biblioteca do nosso agrupamento serve a
cerca de 1.300 alunos e, por dia, recebemos pelo menos quatro turmas para
actividades de leitura, desenho, leitura de imagem, conto e reconto de
histórias e pintura. Temos ainda o cantinho da leitura, o cantinho da escrita e
o cantinho da arte, com actividades específicas que conseguem responder a todos
os tipos de interesses e gostos. Entre as actividades, temos dias em que
levamos a biblioteca para a sala de aula, envolvendo os alunos com competições
de leitura, trabalhos com a celebração de dias nacionais e mundiais, isso tudo
para envolver os alunos e professores no mundo dos livros”, testemunhou.

Maria do Socorro lamenta o facto de a
biblioteca escolar não constar ainda no plano de ensino das escolas, mas diz
esta professora que vem negociando horários e actividades directamente com os
professores. Esta responsável diz que o feedback dos alunos é muito positivo e
sempre que se realizam actividades da biblioteca há uma forte aderência por
parte dos estudantes. “Os professores é que precisam de algum incentivo”.

Na Escola Secundária Constantino Semedo
(ESCS), em Achada São Filipe, embora a biblioteca escolar não tenha ainda
retomado a sua actividade, por conta de constrangimentos nos recursos humanos,
o Expresso das Ilhas abordou alguns alunos que reconhecem a importância da
biblioteca nas escolas.

“Hoje-em-dia é muito mais prático fazer
pesquisa na Internet para suprir a necessidade de informações, mas aqui na
escola temos uma biblioteca muito dinâmica que oferece pesquisa na Internet e
complementa com os livros. A biblioteca tem um profissional disponível para nos
ajudar nas pesquisas, tanto com livros como na internet, além de várias
dinâmicas que são proporcionadas”, diz o aluno Brison Sousa.

O director da ESCS, Luís Barbosa, informou
que a biblioteca esteve a funcionar no início do ano lectivo, mas devido a
constrangimentos com os recursos humanos, encontra-se fechada. Luís Barbosa
salienta que a escola conta com uma biblioteca “viva”, com um acervo de mais de
quatro mil livros que abarca várias temáticas e que conta com doações de
ex-alunos do estabelecimento de ensino. Este responsável adiantou que a escola
tem um projecto para a criação de uma pequena biblioteca de língua estrangeira,
principalmente inglês.

“Enquanto esteve aberta a biblioteca foi
bastante frequentada pelos alunos, tivemos profissionais que motivaram e
incentivaram bastante os alunos a frequentar e participar nas actividades da
biblioteca. Recentemente, tivemos uma doacção por parte de uma ex-aluna da
escola, recebemos um bidão de livros em inglês, de várias temáticas, e sendo o
inglês um grande potencial dos alunos, queremos apostar numa biblioteca de
língua estrangeira, embora ainda estejamos limitados por falta de verba”,
acrescentou.

Falta de
interesse

Um pouco distante desta linha, a biblioteca
do Agrupamento IX da Praia, que engloba as escolas primárias e o liceu Manuel
Lopes, em Calabaceira, conta com uma fraca aderência dos alunos. Em conversa
com a porta-voz da equipa da biblioteca, Vitorina Barros, ficou-se a saber que
poucos alunos procuram a biblioteca de forma voluntária e há uma dinâmica pouco
saudável entre os que a procuram, pois há alunos que entram na biblioteca para
perturbar e distrair os poucos colegas que optam por estudar na biblioteca.

“Há muito poucos estudantes que procuram a
biblioteca para estudar. Há uma grande movimentação. Por conta da localização,
acaba por ser um ponto de encontro entre os alunos, mas não para estudar. Temos
diversos livros e um profissional que presta suporte, mas os alunos preferem
fazer pesquisa na Internet em vez de recorrer aos livros. Existem alunos que
frequentam a biblioteca para perturbar os colegas, acabam por incentivar os
outros a desistir dos livros e a recorrer a meios mais rápidos”, revelou.

Ainda no Liceu Manuel Lopes, um grupo de
estudantes abordados pela nossa equipa, reconheceram a importância da
biblioteca e admitem ter conhecimento dos livros ali disponibilizados, mas
indicaram não sentir atração pela leitura.

“Os livros são importantes, mas prefiro
baixar em PDF e ler no telemóvel do que estar na biblioteca a ler. Não tenho o
hábito de ler, faço pesquisa nos livros quando tenho algum trabalho específico,
em que é obrigatório recorrer aos livros. E ainda assim procuro por resumos na
internet”, testemunhou uma aluna deste estabelecimento de ensino.

Bibliotecas comunitárias

Na nossa ronda pela Cidade da Praia, o
Expresso das Ilhas foi conhecer a biblioteca comunitária localizada no Centro
Multiuso de Alto Safende. O Centro, que alberga uma diversidade de livros, é um
espaço tranquilo para a prática da leitura, estudo e pesquisa. Além da
biblioteca, o Centro possui computadores para dar maior suporte aos estudantes
da comunidade e aos moradores.

Elton Pascoal, Delegado Municipal e responsável
pelo espaço, avança que a biblioteca comunitária está ainda em fase de
execução. Muito embora com fraca aderência da comunidade e dos estudantes, este
responsável diz que o objectivo é dotar o espaço com mais equipamentos para
dinamizar as actividades. O objectivo é fazer com que o espaço seja uma
referência na comunidade e explorar o potencial dos jovens e moradores.

“Estamos a trabalhar para trazer mais
equipamentos e criar dinâmicas que despertem a atenção da população. Temos em
mente a elaboração de concursos, competições de leitura, concursos de contos e
recitação de poemas. O foco é mostrar para a comunidade a importância da
biblioteca e como este espaço pedagógico pode contribuir para o desenvolvimento
da comunidade”.

Por seu turno, o vereador da Cultura da
Câmara Municipal da Praia (CMP), Jorge Garcia, realçou que a criação das
bibliotecas comunitárias perspectiva aumentar a literacia e permitir maior
acessibilidade aos livros e à leitura aos alunos e potenciais interessados em desenvolver as suas capacidades de leitura
e, consequentemente, de escrita.

O vereador da Cultura da CMP confirmou ainda
a existência de uma biblioteca comunitária em São Martinho Pequeno, cujo acervo
é por volta de 900 livros de diversas temáticas, o mesmo em relação à
comunidade de Alto-Safende.

“Neste sentido, estamos num processo de
elaboração de planos de actividade para essas bibliotecas comunitárias, que vão
incluir concursos de poesia e de leitura, desenho e outras actividades que
possam fazer com que mais pessoas frequentem essas bibliotecas. No passado nós
já divulgamos dois editais de artes e espectáculos que não são vocacionados
apenas para a leitura, mas que também impulsionam outras actividades, como
fotografia, artes plásticas entre outras. No primeiro edital tivemos 136
participantes e foram seleccionados 24 trabalhos. No segundo edital foram
47 participantes e 13 trabalhos selecionados”.

Jorge Garcia reitera o engajamento da CMP em
promover a literatura tendo como estratégia promover editais diversificados e
concursos com incentivos monetários. Além disso, o vereador conta que no XI
Encontro de Escritores de Língua Portuguesa (EELP), que decorreu de 19 a
22 de Outubro, na Cidade da Praia, e que teve com tema geral “Língua
Portuguesa, Expressão de Liberdade, Democracia e Desenvolvimento Municipal” foi
uma oportunidade para questionar sobre hábitos de leitura que vão servir como
guias para projectos futuros.

“Uma das nossas ambições, se não for concretizado até o
final do ano, com certeza no início do próximo ano vamos implementar o Edital
Jaime Figueiredo que visa premiar obras inéditas em vários domínios da
literatura. Sendo que o primeiro premiado vai receber um prémio de 400 mil
escudos, mas pretendemos também expandir essa premiação até ao terceiro
classificado”, revelou. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do
Expresso das Ilhas nº 1143 de 25 de Outubro de 2023.


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