A música entra pela vida e a morte

O que Sakamoto fez à sua paixão de sempre – a
música – foi de tal maneira imenso que confesso ter-me assustado na primeira
leitura. Será que pela primeira vez vi realmente o tamanho da dimensão da
música… qualquer coisa que traz consigo o tamanho do além? Não sei….

Lembro-me de ter começado por pensar como
poderia ler o artigo…por onde entrar? Teria eu capacidade para perceber a
dimensão do que Sakamoto fez? Definitivamente não.

Por outro lado, se não faria sentido não o
fazer. Tentei e comecei “pelas beiradas” tal criança… talvez assim fosse menos
intenso com começo mais inocentemente-fácil.

Sem ainda ver as escolhas, tentei adivinhar a
presença óbvia de alguns dos requiens, obviamente, a electrónica, muito piano
solo, o seu “amigo” Sylvian… mas não consegui imaginar mais… apesar de
considerar que ouvi minimamente Sakamoto para que de alguma forma pudesse ter
alguma ideia das escolhas… mas não… claro que não: esqueci-me, deu uma coisa –
o mestre não escolhia repertório para tocar para outros, mas sim o que os
músicos que em vida lhe foram queridos fizeram… temas e senioridades que nele
encontraram, aninho, recolho, abraço e na verdade – Vida…e Morte.

Ouvi várias vezes, imaginei porquês (como se
fosse possível). Insistência que às vezes a música nos faz fazer sem sentir…
ela certamente nos percebe…

Tentei, inclusive, imaginar quais teriam sido
os critérios de escolha – provavelmente nenhum – foram temas que durante a vida
de Sakamoto foram tão intensos que da mesma maneira como se foram encostando e
se abraçando – conforme o parágrafo anterior – partiram com ele para o
pós-vida, ou não?

Poderá também ter sido a música a escolher
Sakamoto para ser um dos que – pela sua dedicação e paixão por esta forma de
arte – o homenagear e no momento da passagem do compositor, ter proposto as
notas que terão se transformado em pétalas de som e terão levado Sakamoto ao
pedaço do paraíso reservado à música.

Uma certeza! A grandeza da música, na
verdade, é tão simples… basta que lhe dediquemos o nosso eu para que ela nos
recompense – de forma bem superior…como neste caso, onde oferece a sua presença
a…ou em… um de nós no todo-sempre.

Sem o querer – de certeza que não – Sakamoto
mostrou-nos… uma vez mais… a transcendentalidade da música e, por mais que
traga para aqui justificações, suposições ou seja la o que for, uma só verdade
se reafirma – a grandeza da música.

Para mim, foi um dos mais intensos sinónimos
de beleza-grandeza que alguma vez vi e que dificilmente será ultrapassado…

Sakamoto já tinha sido premiado por uma banda
sonora que fez….

Esta foi dele e nesta foi o real imperador e
não… o último.

Sim, Ryuichi Sakamoto deixou uma ‘playlist’ com canções
pensadas para o seu funeral: agora podemos ouvi-la…

Em memória de Sérgio Sequeira

Texto originalmente publicado na edição impressa do
Expresso das Ilhas nº 1143 de 25 de Outubro de 2023.


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